Mago criador do Dia do Churrasco e do Chimarrão quer “regulamentar profissão de filósofo”.
A comunidade acadêmica brasileira na área de Filosofia foi pega de surpresa com a notícia de que o deputado federal Giovani Cherini (PDT-RS) apresentou projeto de lei (n° 2533/11), propondo a “regulamentação do exercício da profissão de filósofo em todo o País”. Além de chover no molhado (só poderá exercer a “profissão” de filósofo quem tiver cursado Filosofia), o projeto do deputado gaúcho estabelece uma espécie de reserva de mercado para “filósofos”. Segundo a proposta, “órgãos públicos da administração direta e indireta ou entidades privadas, quando encarregados de projetos socioeconômicos em nível global, regional ou setorial (ou seja, em qualquer nível) deverão manter filósofos legalmente habilitados em seu quadro de pessoal ou em regime de contrato para prestação de serviços”.
Ainda segundo a proposta do parlamentar, os “filósofos” só poderão trabalhar se tiverem um “registro prévio no órgão competente do Ministério do Trabalho”. Ao enumerar quem poderá exercer a profissão, Cherini cria um privilégio para os “membros titulares da Academia Brasileira de Filosofia e aos por ela diplomados”. O deputado não explica as razões do privilégio a essa curiosa entidade. A página da ABF na internet anuncia com destaque que a entidade decidiu abrir suas portas para “festas, reuniões, coquetéis, formaturas, palestras, seminários, cursos, eventos ou reuniões de empresas e entidades, desfiles de moda e joias, aniversários de 15 anos, casamentos, entre outros”.
Outro projeto destacado pelo site da ABF é o desenvolvimento de “projetos com grandes, médias e pequenas empresas interessadas em imagem de marca, repercussão na mídia e cursos para funcionários”. Tudo com “desconto de 100% das doações no imposto de renda”. Entre os doutores Honoris Causa diplomados pela Academia, estão nomes importantes para a “filosofia brasileira” como João Havelange, Carlos Alberto Torres, Ellen Gracie e Michel Temer. Entre suas entidades parceiras, está a Academia Brasileira de Defesa que tem, entre seus objetivos, “defender a honra e a dignidade das Forças Armadas”.
Ao defender seu projeto, Cherini diz que está preocupado em “retirar do mercado de trabalho as pessoas não habilitadas” e em “prestar um justo reconhecimento a esta milenar profissão”.
O deputado Cherini tem uma forte atração (nem sempre correspondida) pelo mundo das ideias e do espírito. Em 2010, ele virou notícia nacional ao fazer um curso de mago, ou avatar. No curso Avatar Resurfacing, da Star’s Edge International, realizado na Bahia, Cherini teve, entre outras experiências, “aulas de transmutação da consciência”, que permitiriam, entre outros fenômenos, “estar em vários lugares ao mesmo tempo”.
Mais recentemente, o deputado envolveu-se em uma polêmica mais terrena ao decidir processar o músico Tonho Crocco, autor do rap Gangue da Matriz, uma crítica ao aumento salarial de 73% aprovado na Assembleia gaúcha em 2010. Diante da forte reação popular, acabou retirando o projeto. Agora, Cherini decidiu se dedicar a melhorar a filosofia brasileira e a “retirar do mercado as pessoas não habilitadas”. Como nem só de ideias, avatares e filosofias vive o homem, o parlamentar também foi autor, como deputado estadual, de projetos como os que criam os dias do churrasco e do chimarrão (24 de abril) e da torcida gremista.
Fonte: http://rsurgente.opsblog.org/2012/01/20/mago-criador-do-dia-do-churrasco-e-do-chimarrao-quer-regulamentar-profissao-de-filosofo/








A constituição brasileira confere a todos os cidadãos a liberdade de pensamento e expressão das opiniões, não cabendo assim que uma instituição confira caráter sindical e transforme em relação trabalhista a atividade filosófica, sob a alegação de que essa profissão possui o resguardo das Idéias e do Pensamento. Não é prerrogativa dos bacharéis e licenciados em filosofia a lida com conceitos e a reflexão sobre a tradição filosófica. Além da vagueza quanto a estabelecer pensamentos e idéias como propriedade de uma profissão, a lei se vale dessa falta de clareza para conferir enormes poderes a uma única instituição, nomeada como Academia Brasileira de Filosofia, a qual os que abaixo se subscrevem também não reconhecem como sua representante em nenhuma instância.
ResponderExcluirAs instituições acadêmicas reconhecidas pelo CAPES e CNPq já se esmeram o suficiente para a manutenção da qualidade daqueles que se diplomam em filosofia, sendo as instituições universitárias suficientes avalistas da excelência de seus filósofos. Aqueles que abaixo se subscrevem reconhecem a recorrência de não diplomados em filosofia que exercem atividades reflexivas sobre conceitos e idéias, com competência exemplar, mas cuja atividade cessaria por falta das devidas relações sindicais, tal como prevê o projeto de lei que nós recusamos.
Por fim, aqueles que abaixo se subscrevem não reconhecem a institucionalização sindical da filosofia como segurança para a atividade do filósofo, mas sim como temerária possibilidade de cerceamento da livre expressão do pensamento, ao colocar sobre a égide de uma única instituição o poder de arbitrar aquilo que é ou deixa de ser pensamentos e idéias filosóficas.